Terras Raras: O Novo Petróleo da Era Digital
- Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
- 4 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Como 17 elementos químicos se tornaram a arma geopolítica mais poderosa de Pequim e por que o Brasil é uma peça-chave no xadrez da transição energética.
Francisco Behr (Júnior no GN Poli)

Nos últimos anos, o termo “terras raras” vem ganhando espaço nas manchetes, sobretudo em discussões que envolvem a disputa tecnológica e geopolítica entre China e Estados Unidos. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos que, apesar do nome, não são exatamente raros, muitos são até mais abundantes que o ouro. O desafio está em extraílos e processá-los de forma economicamente viável e ambientalmente segura, o que os torna caros, estratégicos e altamente concentrados em poucos países.
Esses minerais são peças-chave da economia moderna, fundamentais para turbinas eólicas, veículos elétricos, smartphones, equipamentos médicos e sistemas de defesa. Em outras palavras, são a base invisível da transição energética e da tecnologia de ponta, sustentando setores que moldam o futuro da economia global.
Para entender essa dependência, é preciso detalhar o “porquê”. A chave está nas propriedades magnéticas e catalíticas únicas desses elementos. O Neodímio e o Praseodímio são os principais componentes dos ímãs permanentes, os mais potentes do mundo. Esses ímãs são o coração dos motores de veículos elétricos e das turbinas eólicas. Sem eles, os motores seriam maiores, mais pesados e drasticamente menos eficientes. Já elementos pesados como o Térbio e o Disprósio são adicionados para que esses ímãs mantenham suas propriedades em altas temperaturas, algo indispensável para aplicações de defesa (mísseis, drones) e motores de alta performance.
Embora o tamanho de mercado de terras raras seja relativamente modesto, estimado em US$ 3,74 bilhões em 2024, sua importância estratégica supera em muito seu valor monetário. A razão é simples: quem controla o fornecimento desses elementos controla cadeias produtivas críticas para a inovação, energia limpa e defesa nacional. Para compreender por que esse tema vem ganhando tanta relevância, é preciso olhar para trás e entender como o mundo passou a depender tanto desses recursos e de quem os domina.
Desde o final do século XX, a China passou a investir de forma agressiva na extração e no refinamento desses materiais, consolidando-se hoje como a maior produtora e refinadora de terras raras do planeta, responsável por cerca de 60% da produção e 85% do refino global. Esse domínio quase absoluto cria uma situação preocupante para países altamente dependentes, como Estados Unidos, Japão e membros da União Europeia, que vêm tentando diversificar suas fontes de fornecimento e reduzir a vulnerabilidade estratégica frente a Pequim.
O tema voltou ao centro das discussões políticas e comerciais durante o governo de Donald Trump, quando as tensões com a China se intensificaram no auge da guerra comercial entre as duas potências. Em meio a tarifas e sanções mútuas, Pequim chegou a sinalizar possíveis restrições às exportações de terras raras, um movimento que poderia paralisar setores-chave da economia americana. Em resposta, Washington reclassificou as terras raras como insumo crítico à segurança nacional, lançando programas de incentivo à mineração doméstica e buscando parcerias com aliados estratégicos, como Austrália e Canadá.
Essa “corrida” para fora da China já tem seus protagonistas. Nos Estados Unidos, a MP Materials reativou a histórica mina de Mountain Pass, na Califórnia, e trabalha em um esforço bilionário para construir sua própria capacidade de refino e separação em solo americano, verticalizando a cadeia. Na Austrália, a Lynas Rare Earths, a única grande processadora fora da China, tornou-se um ativo geopolítico, recebendo financiamento do Departamento de Defesa dos EUA para construir uma planta de processamento no Texas. Esses movimentos de produção entre países aliados mostram que o mercado financeiro e os governos ocidentais já precificaram o risco geopolítico.
Um ponto especialmente relevante nessa discussão é o posicionamento do Brasil. O país abriga a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 25% das reservas conhecidas, ficando atrás apenas da China. Apesar desse potencial expressivo, o desafio brasileiro é imenso. O país ainda carece do principal: a tecnologia, a infraestrutura e a escala industrial para o refino. Sem a capacidade de separar e purificar os elementos, o Brasil permanece na base da cadeia, extraindo pouco valor econômico direto desse ativo estratégico e, na prática, exportando conhecimento geológico mais do que produtos de alto valor agregado.
Maiores Reservas de Terras Raras, em Milhões de Toneladas (Fonte: USGS):

Porém, o interesse internacional pelo potencial brasileiro vem crescendo, especialmente à medida que Estados Unidos, Europa e Japão buscam reduzir sua dependência da China. Nesse contexto, o Brasil passa a ocupar um papel geopolítico relevante. O diferencial brasileiro pode estar justamente onde poucos olham: na sinergia com minerações existentes. Em locais como Araxá (MG), as terras raras são encontradas como um “coproduto” da extração de nióbio, um setor que o Brasil já domina tecnologicamente.
Olhando à frente, a corrida pelas terras raras não é sobre o valor do minério, mas sobre quem terá a chave para a transição energética e a soberania tecnológica. Se o século XX foi definido pelo controle do petróleo, o século XXI será moldado pelo controle desses 17 elementos. Para o Brasil, a janela de oportunidade está aberta. O país pode escolher continuar sendo um exportador de potencial geológico ou pode fazer o investimento estratégico em tecnologia de refino para se tornar um pilar de uma nova cadeia de suprimentos global, uma decisão que definirá sua relevância na economia das próximas décadas.




