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Carrefour: Saída da Bolsa Brasileira e o que Faz Sucesso no Setor

  • Foto do escritor: Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
    Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
  • 21 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Por que a retirada da B3 reforça a aposta no atacarejo e o que isso revela sobre os vencedores do varejo alimentar.


Eduardo Rittes (Júnior no GN Poli)



O Carrefour Brasil é uma gigante do varejo alimentar no país, operando sob diversas bandeiras, como Carrefour Hiper, Carrefour Bairro, Express, Market, Sam’s Club e, sobretudo, o Atacadão, que é o líder do setor cash & carry (mistura entre atacado e varejo, em outras palavras, atacarejo) no país e reconhecido como a maior empresa do varejo alimentício (venda de alimentos diretamente ao consumidor) do Brasil. Em 2017, a companhia estreou na Bolsa de Valores brasileira com uma oferta pública inicial de cerca de R$5,125 bilhões, com cotação da ação fixada em R$15,00, o nono maior IPO da história da B3. Apesar disso, mais recentemente, a matriz optou por uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) visando o fechamento de capital da subsidiária no país, marcando a saída do CRFB3 da bolsa brasileira.


Uma OPA é o mecanismo pelo qual um acionista existente, neste caso, a matriz francesa, faz uma proposta aos acionistas minoritários para adquirir suas ações, com intuito de controle ou recolhimento do capital. Ou seja, significa fechar o capital da companhia listada e sair da bolsa brasileira.


Em abril de 2025, os acionistas minoritários aprovaram, com cerca de 59% dos votos, a delisting do Carrefour Brasil da B3. A operação é um OPA amigável, ou seja, negociada e apoiada pela administração, com três opções de resgate: 100% em dinheiro por R$ 8,50/ação (Classe A); mistura de dinheiro (R$ 4,25/ação) com ações da Carrefour França (Classe B); ou 100% em ações da matriz (Classe C).


A decisão reflete uma estratégia da matriz de simplificar a estrutura societária, agilizar a tomada de decisões e promover maior flexibilidade operacional em um mercado dinâmico como o brasileiro, sem a volatilidade e exigências regulatórias impostas pela bolsa. A operação também encerra uma trajetória de oito anos marcada por desafios. Apesar do IPO promissor, a ação caiu cerca de 44% frente ao preço inicial de R$ 15,00, negociando em torno de R$ 8,45 no fechamento, e a empresa chegou a reportar prejuízo trimestral e margens comprimidas.


Do ponto de vista da gestão corporativa, a saída permite reduzir custos de compliance, evitar distrações com resultados de curto prazo e consolidar a estratégia de longo prazo, especialmente centrada no crescimento do Atacadão e da expansão digital. A tese de valor por trás da OPA é, portanto, uma busca por maior eficiência e menor pressão de mercado.


A saída de uma empresa relevante como o Carrefour Brasil pode ter efeitos variados para o setor: por um lado, reduz o número de players monitorados publicamente e diminui a liquidez setorial (facilidade e volume de negociação das ações de um setor); por outro, pode sinalizar que o ambiente regulatório e de mercado ainda apresenta desafios para empresas de grande porte, encorajando outras companhias a ponderar seus modelos e estruturas de capital.


Nos últimos anos, o varejo alimentar brasileiro foi redesenhado pelo avanço do atacarejo. Não por acaso, a decisão do Carrefour de fechar o capital no Brasil via OPA acontece justamente para focar nesse canal, através da expansão do Atacadão, que já vinha puxando o resultado, movimentos coerentes com um formato que ganha participação de consumo e frequência de compra nas famílias brasileiras.


Conforme uma pesquisa feita com a NielsenIQ em parceria com a Associação Brasileira dos Atacarejos (ABAAS), o atacarejo, além de ser o maior canal do varejo alimentar no Brasil, apresentou o maior crescimento em 2024 (+12,9%), um aumento da penetração nos lares e maior lealdade dos consumidores ao canal, cujo avanço é visível em todas as classes socioeconômicas. Dessa forma, a medida se alinha à lógica da OPA: fora da B3, a empresa ganha mais autonomia para ajustar o portfólio, acelerar decisões e priorizar projetos com maior ROIC, com menos custo de compliance e menor pressão por resultado trimestral.


Penetração dos Canais do Varejo Alimentar nos Lares Brasileiros (Fonte ABAAS):



Do lado dos pares listados, os números reforçam o playbook. Dentre os players do varejo alimentício brasileiro, destaca-se o Assaí (ASAI3) e o Grupo Mateus (GMAT3), ambos operando no modelo do atacarejo. O Assaí combina escala, giro alto e disciplina de despesas para sustentar crescimento com geração de caixa. O Grupo Mateus reforça a tese com execução sólida fora do eixo Sul–Sudeste, mantendo expansão orgânica com eficiência operacional e alavancagem conservadora. Esses resultados, em geografias e maturidades distintas, apontam que cash & carry permanece como vetor de geração de valor no setor.


Em suma, a OPA e o consequente delisting da CRFB3 visam dar ao Carrefour Brasil, após períodos de performance aquém do esperado, mais agilidade para focar no que gera valor, sua bandeira que opera no canal do atacarejo, o Atacadão. Fora da B3, a empresa consegue reduzir custos e pressão de curto prazo, podendo acelerar conversões, otimizar portfólio e priorizar projetos com maior ROIC. O setor segue a mesma tendência, Assaí e Grupo Mateus mostram que preço baixo, escala e execução consistente continuam sendo o caminho para ganhar participação e rentabilidade.



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