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TOTVS e a pergunta do momento: a IA vai substituir o ERP?

  • Foto do escritor: Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
    Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
  • 10 de mar.
  • 5 min de leitura

Com agentes de IA cada vez mais capazes de automatizar diferentes tarefas, surge a dúvida sobre se empresas de SaaS, como a TOTVS, poderão ser substituídas.


Por Luca Damico Terada (Júnior do Grupo)


Nos últimos dias, as ações de empresas de software, especialmente as de Software as a service  (SaaS), entraram em uma onda de vendas que parece mais emocional do que racional, com quedas fortes, volatilidade elevada e um mercado tentando precificar o que a IA pode representar para o setor. Nos EUA, o índice de software (IGV) acumula uma queda relevante desde o fim de outubro, e a discussão sobre a “ameaça existencial” da IA virou o tipo de narrativa que acelera o pânico, a ponto de algumas empresas anunciarem recompras bilionárias e, ainda assim, não conseguirem acalmar o mercado.


Gráfico – Mercado total de software e serviços( USD Billion); IGV(%) (Fontes: ABES, Brazil Journal)


OpenAI e Claude ajudaram a intensificar essa discussão porque, nas últimas semanas, deixaram de falar apenas de modelos melhores e passaram a vender uma ideia muito mais direta de IA como execução, e não apenas como resposta. A OpenAI lançou o Frontier, uma plataforma para empresas criarem, colocarem em produção e administrarem agentes com contexto compartilhado e permissões claras, ou seja, agentes que, para além da estrutura de chat, se conectam a ferramentas e operam processos. Em paralelo, a Anthropic (Claude) anunciou uma leva de plug-ins corporativos desenhados para tarefas específicas, de investment banking a RH e engenharia, conectando o Claude a serviços como Slack, DocuSign e parceiros de dados. Segundo a Reuters, esse tipo de anúncio veio logo depois de um “momento gatilho” que alimentou a aversão do mercado ao setor de software. Quando duas das principais empresas de IA começam a lançar agentes prontos para o trabalho e a distribuir isso via consultorias e integrações, a leitura do investidor passa a ser a de que não se trata apenas de inovação tecnológica, mas de uma tentativa de capturar o orçamento que antes ia para ferramentas tradicionais, como o ERP, sistema de gestão empresarial que integra, em uma única plataforma, as principais áreas de uma empresa, como financeiro, compras e estoque.


Diante disso, a gigante brasileira TOTVS também sofreu com a reprecificação do setor, chegando a cair cerca de 13% em um único dia. Isso ocorre porque as principais operações da empresa estão ligadas a soluções SaaS, com destaque para ERPs e sistemas de gestão usados no dia a dia das companhias. Assim, em um mercado que passou a precificar o risco de a IA tornar parte do software menos relevante, a TOTVS acabou sendo impactada.


Para o CEO, Dennis Herszkowicz, a ideia de “morte” do ERP não passa de uma “maluquice de investidor”. Ainda assim, a TOTVS tem usado esse contexto para reagir à desvalorização do papel com iniciativas de alocação de capital, como programas de recompra de ações. Em fevereiro de 2026, foi anunciado um programa de recompra de até 20 milhões de ações, com vigência até fevereiro de 2027. Além disso, a empresa anunciou o lançamento da LYNN, uma plataforma de IA da TOTVS voltada para empresas, criada para servir de base ao desenvolvimento e ao uso de agentes e funcionalidades de IA dentro das soluções de gestão, com foco em segurança, governança e aplicações corporativas. Com isso, a companhia busca incorporar IA ao portfólio para expandir a base de clientes e reduzir o risco de perda de relevância que o mercado passou a precificar.


A correção recente do setor não se espalhou de forma igual entre as empresas, mas a nova lente do mercado parece ser a mesma. Com a IA ficando mais presente na ponta, os investidores passaram a olhar para recorrência e crescimento de cloud com mais ceticismo, mesmo quando os indicadores continuam saudáveis. No Brasil, a Senior vinha entregando avanço em cloud e em receitas recorrentes, mas entrou no mesmo pacote de risco que atingiu o software globalmente. No exterior, SAP e Oracle seguem mostrando expansão em cloud e uma base de clientes resiliente, mas a narrativa foi deslocada do crescimento previsível via assinatura para a pergunta sobre onde o valor será capturado quando novas camadas de IA ganham protagonismo. Esse deslocamento é sutil, mas tem sido suficiente para comprimir múltiplos. Não significa que a operação mudou de um trimestre para o outro, mas sim que o mercado ficou menos disposto a pagar caro por previsibilidade quando o discurso dominante passou a ser automação, agentes e plataformas que prometem encurtar o caminho entre intenção e execução.


Nessa mudança de lente, faz sentido separar o que é interface do que é infraestrutura. O ERP é a base transacional que amarra processos e dados críticos da empresa, e é justamente essa função de “sistema de registro” que torna improvável uma substituição direta por IA. O motivo é menos tecnológico e mais prático, porque o ERP carrega regras fiscais e contábeis, controles, integrações com dezenas de sistemas e uma trilha de auditoria que precisa ser estável, repetível e aceita por áreas como finanças, compliance e TI. Trocar essa base exige migração de histórico, revalidação de processos e um nível de risco operacional que poucas empresas aceitam assumir, especialmente quando qualquer falha afeta faturamento, impostos, pagamentos e fechamento. Por isso, a tendência mais plausível é que a IA capture valor como uma camada complementar, automatizando tarefas e decisões no entorno, enquanto o ERP segue como o “motor” que garante consistência e governança.


Gráfico – Barreiras de implementação de ERP (Fonte: ABES)


 


Para a TOTVS, a lógica do ERP como “sistema de registro” ajuda a colocar a discussão de IA no lugar certo. O risco imediato não é uma substituição em massa do transacional, que é caro e arriscado para o cliente, mas sim a IA passar a mediar o uso do ERP, puxando a atenção do usuário para copilotos, automações e fluxos mais diretos. Com essa camada ganhando espaço, a comparação deixa de ser apenas entre ERPs e passa a incluir quem consegue encurtar ciclos de trabalho e reduzir fricção nas rotinas. Isso também muda o que sustenta a leitura do mercado, com mais peso para sinais de adoção e monetização incremental do que para promessas amplas. No fim, a disputa deixa de ser sobre trocar a base e passa a ser sobre quem se torna a interface preferida no dia a dia, influenciando expansão de contrato, precificação de camadas extras e a percepção sobre a trajetória de receita recorrente.


Em suma, tudo se resume à pergunta que virou o centro da discussão, se a IA vai substituir o ERP, e à forma como a TOTVS entra nesse debate no Brasil. A reprecificação recente do setor aconteceu mais por uma mudança de narrativa do que por deterioração imediata de fundamentos, com investidores tentando entender onde o valor passa a ser capturado quando soluções de IA prometem execução mais direta. Ao mesmo tempo, a natureza do ERP como base transacional, repleta de integrações, regras e exigências de controle, torna improvável uma troca rápida do sistema central. A discussão mais plausível deixa de ser se “o ERP acaba” e passa a ser quem controla a camada de interação e automação ao redor dele, e é nesse ponto que a discussão sobre a TOTVS tende a se concentrar.

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