O Colapso do Banco Master
- Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
- 2 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Como se deu a maior liquidação recente do mercado financeiro brasileiro?
Felipe Ramos (Sênior no GN Poli)

A detenção de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos, enquanto tentava embarcar para Dubai, e a subsequente decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, marcaram o fim de uma das trajetórias mais controversas do sistema financeiro nacional na última década. O episódio, longe de ser apenas um caso de polícia, expôs um problema sistêmico. A “Operação Compliance Zero” trouxe à tona um rombo estimado em R$ 12 bilhões e revelou um mecanismo financeiro insustentável que operou sob o radar da fiscalização por tempo demais. Agora, o mercado se debruça sobre os detalhes técnicos e as consequências práticas de uma quebra que exigirá o maior desembolso da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Para entender como o Banco Master chegou a esse ponto, é preciso analisar a estratégia adotada desde a transição da marca, quando deixou de ser o Banco Máxima. Sob o comando de Vorcaro, a instituição adotou uma política de expansão agressiva baseada na captação de varejo. O banco inundou as plataformas de corretoras com Certificados de Depósito Bancário (CDBs) oferecendo taxas muito acima da média de mercado, frequentemente ultrapassando 130% do CDI. Essa estratégia serviu para atrair liquidez rápida e massiva de pessoas físicas, inflando o passivo do banco com a promessa de retornos que nenhuma outra instituição sólida conseguia acompanhar.
O problema central, apontado agora pelas investigações, residia no destino desses recursos. Para pagar juros tão altos aos investidores, o banco precisaria ter uma carteira de crédito com rentabilidade ainda maior e baixo índice de inadimplência. No entanto, a realidade do balanço era oposta. O Master especializou-se na aquisição de distressed assets, conhecidos como ativos estressados, precatórios e créditos de difícil recuperação. A acusação das autoridades é que o banco utilizava manobras contábeis para supervalorizar esses ativos no balanço, criando um “lucro contábil” fictício que aumentava artificialmente o Patrimônio Líquido da instituição. Isso permitia que o banco continuasse captando mais dinheiro no mercado sem violar, na aparência, os índices de Basileia exigidos pelo Banco Central.
Essa dinâmica criou uma dependência estrutural de “dinheiro novo”. O banco precisava captar cada vez mais recursos via CDBs não para expandir operações saudáveis, mas para honrar os juros compostos dos investidores antigos e cobrir os buracos operacionais.
A situação tornou-se insustentável no decorrer de 2024, quando o fluxo de captação começou a diminuir e as exigências de capital aumentaram. A tentativa de venda de uma participação relevante para o BRB (Banco de Brasília) foi a cartada decisiva. Apresentada ao mercado como uma parceria estratégica para expansão, a operação era, na visão dos investigadores, uma tentativa de obter injeção de capital de um ente estatal para cobrir a insolvência oculta. O veto do Banco Central ao negócio foi o sinal de que a maquiagem contábil não se sustentava mais diante de uma auditoria rigorosa. Sem o aporte do BRB e com o mercado de captação fechando as portas devido aos rumores de crise, o colapso era questão de tempo.
A tentativa final de criar uma narrativa de salvação envolveu a suposta oferta do fundo Fictor e de investidores árabes, uma notícia que circulou dias antes da intervenção. As autoridades suspeitam que essas movimentações serviram apenas para ganhar tempo ou tentar justificar a saída de Vorcaro do país. A prisão no aeroporto desmantelou a estratégia e acelerou a decisão do regulador de decretar a liquidação extrajudicial, congelando imediatamente todos os bens e operações da instituição e de sua corretora associada.
Assim, houve um forte impacto, de modo que o FGC terá de cobrir cerca de R$ 41 bilhões. Esse volume pressiona a liquidez do próprio sistema de garantias e deve levar meses para ser totalmente processado, deixando investidores de varejo com seus recursos travados. Além disso, a quebra lança incertezas sobre o destino do Will Bank, o braço digital do grupo. Embora tenha uma operação segregada e uma base de clientes ativa, o banco digital faz parte da massa falida e deve ser colocado à venda rapidamente para tentar recuperar parte do prejuízo, numa operação complexa que envolve separar a tecnologia e a carteira de clientes dos passivos da matriz.
Valor Estimado da Cobertura do FGC (R$ Bilhões):

A liquidação do Banco Master encerra um ciclo de permissividade com modelos de negócios baseados em alavancagem excessiva e precificação distorcida de risco. A investigação agora entra em uma fase pericial para rastrear o destino dos bilhões captados e identificar a cadeia de responsabilidades, que pode envolver não apenas a diretoria executiva, mas também falhas nas auditorias independentes que validaram os balanços nos últimos anos.




