O IPO da SpaceX: O que está por trás da maior abertura de capital da história
Os riscos, o impacto geopolítico e as lições financeiras do IPO de US$ 2 trilhões da SpaceX.
Lucas Maia (Júnior no GN Poli)

A SpaceX, empresa aeroespacial de Elon Musk, fez história com a abertura de capital que superou todas as outras ofertas já registradas globalmente. No dia 12 de junho, a empresa captou US$ 85,7 bilhões em sua oferta pública inicial de ações (IPO), valor que inclui uma opção de lote suplementar, chamado de greenshoe, mecanismo que permite aos coordenadores da oferta vender um lote adicional de ações para atender à forte demanda dos investidores.
Na estreia das ações de ticker SPCX, a companhia encerrou seu primeiro pregão com uma alta de 19%, elevando o valuation da empresa para mais de US$ 2 trilhões e tornando Musk o primeiro trilionário do mundo. Para compreender esse impacto expressivo no mercado financeiro, é preciso entender o potencial de geração de valor da SpaceX.
Valuations dos maiores IPO’s do mercado americano (US$ bilhões) (Fonte: FactSet e Bankrate)

O modelo de negócios é único. Fundada em 2002, a empresa deixou de ser apenas uma prestadora de serviços de lançamento de foguetes para se tornar uma holding de infraestrutura espacial e telecomunicações. Hoje, a SpaceX opera em três principais frentes: 1. o segmento espacial (lançamento de foguetes e transporte de astronautas), 2. a internet via satélite (Starlink) e 3. inteligência artificial (xAI, que está por trás do Grok, da plataforma X).
No core business, de lançamentos espaciais, a empresa foi responsável por causar uma disrupção na indústria devido à tecnologia da reutilização de propulsores. Enquanto concorrentes queimam um foguete inteiro a cada missão, a eficiência da SpaceX viabiliza margens muito acima do que se estima para os pares. O número de operações saltou de 61 em 2022 para 165 em 2025, e hoje a empresa realiza missões para clientes privados, para a NASA, para o Departamento de Defesa dos EUA e para agências espaciais, colocando satélites, cargas e tripulações em órbita. Aqui vale destaque também para o foguete Starship, que é o maior e mais potente veículo espacial já construído, concebido para ser totalmente reutilizável, se for bem-sucedido, o Starship viabiliza missões lunares e marcianas.
Já na Starlink, o serviço de internet via satélite possui 10,3 milhões de usuários ativos globais, a base de clientes inclui consumidores em áreas rurais, aviação civil, setor marítimo e parcerias de infraestrutura com operadoras de telefonia móvel. Soma-se a isso a Starshield, versão militar da rede, que possui contratos com o Pentágono. Esse braço da empresa foca na geração de receita recorrente por meio de assinaturas mensais.
A companhia optou por incorporar também as operações da xAI, criadora da inteligência artificial Grok. Entretanto, a frente de IA já absorve o maior volume de investimentos do conglomerado, e as receitas não vêm acompanhando o Capex investido. Diante disso, pode-se dizer que esse desajuste é um dos principais riscos do IPO da SpaceX, visto que a Starlink é a única divisão com geração de caixa positiva e responde pela maior parte da receita da companhia, a qual registrou prejuízo líquido relevante em 2025 e investiu pesado, com a maior parte direcionada à inteligência artificial. No início de 2026, a receita continuou crescendo, mas em ritmo mais lento que no ano anterior. Nesse sentido, torna-se um alerta a desaceleração da receita juntamente com o aumento do Capex.
Receita (US$ bilhões) x Margem Líquida (%) (Fonte: Form S-1 e The New York Times)

Com um modelo de negócios disruptivo e tendências inovadoras, além de um líder conhecido pelo sucesso de seus negócios, como Musk, que afirma que ficará surpreso se a receita da SpaceX não superar US$ 1 trilhão até 2031, fica a pergunta: vale a pena investir na companhia nesse momento?
A estatística não joga a favor de quem compra no calor do momento. Um levantamento da Truist Wealth com 30 grandes IPOs de tecnologia dos últimos 15 anos mostrou queda média de cerca de 55% no primeiro ano de negociação. A US$ 135 por ação, a companhia chega à Bolsa avaliada em cerca de 94 vezes a receita de 2025, e, como comentou Leonardo Andreoli ao InfoMoney, especialista em investimentos da Hike Capital: “é uma tese de crescimento de altíssimo risco, e não de uma compra óbvia”. Sendo assim, a exposição de carteira ao IPO depende do perfil do investidor, ativos de alto risco podem oferecer retornos elevados, mas a precificação em um ambiente de euforia aumenta significativamente as incertezas.
Ademais, a abertura de capital no país norte-americano evidencia a disputa tecnológica entre EUA e China, em que as duas principais economias globais adotam modelos distintos de financiamento. Enquanto os Estados Unidos captaram dinheiro em Wall Street, no mercado financeiro, a China conta com empresas estatais, planejamento de longo prazo e recursos públicos. A disputa por influência global existente está em foco com o IPO, que engloba três áreas de extremo interesse para o futuro geopolítico; espaço, comunicação e IA.
Em matéria do G1, Álvaro Machado Dias, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), comentou que projetos como o Starship, futuros centros de processamento de dados em órbita e iniciativas ligadas à infraestrutura lunar exigem uma escala de recursos que dificilmente pode ser sustentada apenas por investidores privados tradicionais, e é nesse contexto que o mercado financeiro ganha relevância.
Em suma, o IPO da SpaceX vai muito além da abertura de capital de uma empresa inovadora. O evento demonstra como mercados de capitais desenvolvidos são capazes de mobilizar volumes expressivos de recursos a custos competitivos para financiar projetos de longo prazo, intensivos em tecnologia e com elevado potencial de transformação econômica. Nesse contexto, o mercado financeiro desempenha uma função fundamental ao conectar a poupança dos investidores às necessidades de financiamento, permitindo que projetos inovadores encontrem os recursos necessários para crescer, gerar empregos, elevar a produtividade e impulsionar o avanço tecnológico.
Para o Brasil, a lição é clara. O desenvolvimento econômico sustentável passa também pelo fortalecimento do mercado de capitais nacional, ampliando o acesso das empresas a fontes de financiamento de longo prazo e reduzindo a dependência do crédito bancário. Um mercado mais robusto, com maior participação de investidores e um ambiente favorável a novos IPOs, pode contribuir para reduzir a lacuna da inovação no país. O caso da SpaceX demonstra que, quando há um mercado de capitais profundo e eficiente, empresas com projetos ambiciosos conseguem transformar inovação em crescimento econômico e liderança tecnológica.




