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Zamp e a pergunta do momento: é possível reerguer marcas fragilizadas?

Foto do escritor: Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
há 4 dias
4 min de leitura

Com Starbucks e Subway voltando a crescer dois anos depois da recuperação judicial, surge a dúvida sobre quanto desse resgate a Zamp já concluiu e o que ainda depende de execução

Por Leonardo Shinohara (júnior no GNPoli)

Em 31 de outubro de 2023 a SouthRock, então operadora de Starbucks e Subway no Brasil, pediu recuperação judicial. O grupo alegou instabilidade econômica, volatilidade dos juros e variação cambial para explicar a deterioração das contas, mas o efeito prático já era visível na ponta. A Starbucks tinha 187 lojas no país e passou a fechar unidades por atraso de aluguel, pois faltava caixa para honrar os contratos e o estoque não chegava. Assim, a marca que havia se instalado no Brasil como símbolo de consumo urbano entrou em uma nova fase. Já o Subway vivia um problema de outra natureza, pois era operado integralmente por franqueados. A rede chegou ao fim de 2023 com SSS (same-store sales) próximas de zero e um sistema desconectado da masterfranqueadora, empresa que detinha o direito de explorar a marca no país.

Foi nesse estado que a Zamp encontrou os dois ativos. A antiga BK Brasil, que já operava Burger King e Popeyes sob contrato de franquia com a Restaurant Brands International (RBI), concluiu a compra da Starbucks e assumiu a masterfranquia do Subway em outubro de 2024. O preço pago retrata bem o que foi comprado, pois a companhia desembolsou R$ 102 milhões por uma operação que chegou com lojas a menos, estoque descoberto e dívida a herdar. Das 187 unidades originais apenas 114 entraram no portfólio. Além disso, em setembro de 2025 o Mubadala Capital, braço do fundo soberano de Abu Dhabi, adquiriu 85% da compania, dando à empresa um acionista de horizonte longo para bancar a reconstrução.

Diante disso, a gestão liderada por Pedro Zemel desde abril de 2025 chegou ao diagnóstico de que o problema central estava na experiência dentro das lojas. Em vez de perseguir margem por corte de custos, a Zamp decidiu gastar exatamente nos pontos que o cliente percebe. O teste mais ilustrativo aconteceu em cerca de 30 restaurantes do Burger King na Zona Norte de São Paulo, em que a empresa aumentou o número de funcionários por turno e a manutenção dos equipamentos, além de realizar pequenas reformas e treinamentos. Com isso, essas lojas passaram a crescer 25% acima da média da rede. O método não é financeiro e sim operacional, e é ele que explica o que aconteceu com as quatro bandeiras desde então.

Na Starbucks o trabalho começou pelo básico, pois antes de mexer no produto era preciso normalizar estoques, recuperar as lojas e retomar o nível de serviço. Só depois veio a revisão do cardápio, com a linha de Cafés Brasileiros, em um esforço deliberado de aproximar a marca do hábito de consumo brasileiro. Dessa maneira, a operação que entregava SSS (same store sales) de -16,8% em 2024 passou a crescer e não parou mais, acumulando seis trimestres consecutivos de alta desde que a Zamp assumiu. Esse movimento separa recuperação de expansão, pois a marca segue praticamente com o mesmo número de lojas que recebeu. Assim, a Zamp consolida um modelo que otimiza a venda nas lojas já existentes e fortalece a base do negócio.

Gráfico – Vendas em mesmas lojas de Starbucks e Subway, do 4T24 ao 2T26 (Fonte: RI Zamp)
Gráfico – Vendas em mesmas lojas de Starbucks e Subway, do 4T24 ao 2T26 (Fonte: RI Zamp)

No Subway o trabalho teve natureza distinta, pois a marca é integralmente franqueada no Brasil. As vendas em mesmas lojas saíram do patamar próximo a zero para 19% no 2T26. Porém, o dado que melhor traduz a virada não é o de vendas e sim o de portas abertas. Em 2025 a rede encolheu de forma significativa, com 108 fechamentos ao longo do ano, em um saneamento deliberado da base. Mas em 2026 o sinal se inverteu e as aberturas passaram a superar os fechamentos, de forma que a rede voltou a crescer e encerrou junho com 1.466 restaurantes.

Gráfico – Número de restaurantes Subway por trimestre, do 4T24 ao 2T26 (Fonte: RI Zamp)
Gráfico – Número de restaurantes Subway por trimestre, do 4T24 ao 2T26 (Fonte: RI Zamp)

Enquanto isso, as duas marcas que a Zamp já conhecia sustentaram a operação e financiaram o resgate. O Burger King encerrou o 2T26 com 986 restaurantes, SSS (same store sales) de 5,2% e margem bruta de 68,2%, resultado da estratégia de revenue management adotada para absorver a inflação da proteína. Já o Popeyes cresceu 15,6% em mesmas lojas, chegou a 96 unidades e voltou a abrir lojas em 2025, depois de um ano concentrado em amadurecer a operação existente.

O efeito combinado aparece no consolidado. A margem bruta chegou a 69,3% no 2T26, a maior da série histórica da companhia, puxada pela estratégia de preços e pela maior participação da receita de serviços do Subway. Além disso, o EBITDA ajustado somou R$ 185 milhões no trimestre e o prejuízo líquido recuou para R$ 45,8 milhões. A operação também gerou caixa, pois foram R$ 254 milhões no trimestre, 23% acima de um ano antes.

Por isso, a discussão deixa de ser sobre o resgate e passa a ser sobre a etapa seguinte. A Zamp investiu R$ 242 milhões no primeiro semestre, mais que o dobro do mesmo período de 2025, majoritariamente em reinvestimento nas lojas, reformas, tecnologia e aberturas. Além disso, o plano para 2026 prevê cerca de 70 aberturas de lojas próprias e 200 reformas de Burger King. Mas esse dinheiro tem natureza de retorno diferente do que foi gasto até o momento. O processo de abertura de lojas traz um efeito tardio, o que concentra o retorno financeiro das aberturas de 2026 no ano de 2027.

Em um cenário de investimento acima de resultado imediato, a Zamp comprova que é possível reerguer marcas fragilizadas. A Starbucks voltou a vender mais com o mesmo parque, o Subway voltou a abrir lojas, o Burger King recompôs margem e o Popeyes retomou a expansão, tudo isso em menos de dois anos. A etapa que segue é a de consolidação e execução, de forma que a pergunta relevante daqui para frente deixa de ser se a Zamp sabe consertar e passa a ser em que velocidade ela sabe crescer.


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