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Delivery em Ebulição: iFood Reina, mas Rivais Ameaçam o Trono

  • Foto do escritor: Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
    Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
  • 3 de jun.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 8 de ago.

Com R$ 7 bilhões em novos investimentos no setor, Brasil vira campo de batalha entre gigantes globais.


Por Felipe Ramos (Júnior do Grupo)


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Durante anos, o mercado brasileiro de delivery foi sinônimo de um único nome: iFood. Com mais de 80% de participação de mercado, o aplicativo da Movile consolidou-se como líder absoluto do setor, processando cerca de 120 milhões de pedidos por mês e atingindo a impressionante marca de 55 milhões de usuários ativos. Esse domínio, construído sobre uma rede de mais de 360 mil entregadores e uma forte presença nacional, permitiu ao iFood absorver boa parte da demanda em um mercado que movimentou R$ 147 bilhões em 2024, uma alta de mais de 50% em relação a 2019.


Tamanho do mercado de delivery no Brasil em R$ Bilhões (Fonte: Euromonitor International)


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No entanto, após anos de hegemonia quase incontestável, o cenário começa a se transformar. Três grandes movimentos recentes sinalizam que o trono do iFood virá a ser desafiado de maneira inédita, e com capital estrangeiro pesado por trás. Em uma tacada coordenada, Rappi, Meituan (por meio da bandeira Keeta) e DiDi (por meio da 99Food) anunciaram planos robustos de expansão no Brasil, com investimentos que somam mais de R$ 7 bilhões nos próximos anos. A nova onda de competição promete redesenhar as margens, os modelos de negócios e as preferências dos consumidores.


Market share do mercado de delivery (Fonte: Abrasel)


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O primeiro a mexer as peças foi o Rappi, que atualmente detém menos de 10% do market share brasileiro. A empresa colombiana anunciou, em maio de 2025, um ambicioso plano de investimento de R$ 1,4 bilhão até 2028, com foco especialmente no segmento de restaurantes. O coração dessa estratégia está em uma proposta ousada: isentar todas as taxas de intermediação por três anos para restaurantes cadastrados até julho de 2025. Em outras palavras, comissões de até 30% cobradas hoje pelo iFood desapareceriam do custo de operação de milhares de estabelecimentos. Junto a isso, o Rappi lançou um novo aplicativo, redesenhado com foco em usabilidade, algoritmos de inteligência artificial para recomendações personalizadas, e até recursos sociais, como seguir chefs, amigos e influenciadores, num modelo próximo ao de redes sociais. A expectativa é clara: conquistar consumidores e parceiros com melhor experiência e preços finais mais baixos.


Quase simultaneamente, o Brasil passou a atrair o olhar de um novo gigante global: a Meituan, maior plataforma de delivery da China, com cerca de 770 milhões de usuários ativos e 98 milhões de pedidos por dia. A entrada da empresa no país ocorrerá sob a marca Keeta, que já começou a estruturar operações e logística no território nacional. Segundo informações reveladas durante a visita do presidente Lula à China, a Meituan pretende investir cerca de R$ 5,6 bilhões no Brasil até 2030, sendo um dos maiores aportes estrangeiros no setor de tecnologia e alimentação do país nos últimos anos. A estratégia da Keeta envolve rápida penetração nos grandes centros urbanos, uso de tecnologia própria para otimização logística e um possível modelo de precificação agressiva, explorando dark kitchens, subsídios temporários e entregas ultrarrápidas.


Enquanto isso, a DiDi Chuxing, controladora da 99, surpreendeu o mercado ao anunciar o retorno da 99Food, encerrada em 2023. Com um novo investimento de R$ 1 bilhão, a plataforma voltará a operar em cidades estratégicas como Goiânia, com uma política de preços disruptiva: taxa zero para restaurantes e apenas 4,5% de taxa de entrega, além de cerca de 3,2% em custos de pagamento. A proposta da 99Food foca em uma tentativa clara de capturar os pequenos e médios estabelecimentos que hoje consideram o iFood financeiramente inviável. A empresa acredita que pode reconquistar parte dos usuários que foram abandonados após sua retirada do mercado.


O efeito combinado dessas movimentações já é percebido pelo setor. Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, afirmou recentemente que a chegada desses novos players “pode abrir espaço para que essas taxas zero se perpetuem” e que a concorrência obrigará uma revisão nas atuais comissões de até 30% que muitos restaurantes ainda pagam às plataformas líderes. Segundo projeções da Euromonitor, o mercado de delivery no Brasil deve continuar crescendo a uma taxa média de 6,9% ao ano até 2028, mas o principal vetor de mudança não será o volume de pedidos, e sim as margens, os custos para restaurantes e a experiência do consumidor final.


Em um setor onde o iFood por anos operou praticamente sozinho, a entrada simultânea de três gigantes, cada uma com estratégias tecnológicas, comerciais e operacionais distintas, promete instaurar uma nova era de competição. Para o consumidor, isso pode significar preços mais baixos, maior diversidade de serviços e novas funcionalidades. Para os restaurantes e entregadores, trata-se da chance de renegociar relações comerciais e buscar plataformas com maior equilíbrio na divisão de valor. E para o próprio iFood, é o momento de decidir se vai responder com inovação e corte de taxas, ou se arrisca a ver, pela primeira vez em anos, a sua liderança absoluta ser ameaçada.

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