LVMH Acelera no Grid da Fórmula 1
- Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
- 19 de ago.
- 4 min de leitura
Uma análise estratégica sobre como o maior grupo de luxo do mundo redefiniu sua presença global ao entrar no grid da principal categoria do automobilismo mundial.
Felipe Ramos (Sênior no GN Poli)

Em 2025, a LVMH deu um passo ousado e estratégico ao entrar oficialmente como patrocinadora da Fórmula 1, marcando o início de uma nova era para o esporte e para o conglomerado de luxo. O acordo, avaliado em aproximadamente US$ 1 bilhão por 10 anos, substituiu a Rolex como patrocinadora oficial de cronometragem da F1, posição que ocupava desde 2013. Esta movimentação não é apenas uma jogada de branding, mas uma ação cuidadosamente alinhada aos novos rumos tanto da Fórmula 1 quanto da própria LVMH.
O automobilismo vive uma transformação cultural e de audiência. Com a popularização impulsionada por produções como a série Drive to Survive, a F1 expandiu sua base de fãs para públicos mais jovens e diversos, incluindo um número crescente de mulheres. Essa renovação do público atraiu marcas que desejam reposicionar sua imagem ou fortalecer sua presença em audiências digitais e globais, caso da LVMH. A marca não está interessada apenas em visibilidade; ela quer pertencer culturalmente a esse universo de inovação, excelência e performance, valores que espelham o próprio DNA de Maisons (casas de moda tradicional e exclusiva, associadas à alta costura e ao luxo) como Louis Vuitton, TAG Heuer e Moët & Chandon.
O racional por trás da entrada da LVMH é multifacetado. Em termos de negócio, a Fórmula 1 oferece uma das plataformas mais valiosas em relação a exposição contínua. São mais de 20 corridas por ano, transmitidas em mais de 180 países, com 1,6 bilhão de espectadores globais na temporada passada e cerca de 97 milhões de seguidores nas redes sociais. Para a LVMH, esse alcance é uma oportunidade incomparável de construir narrativas de marca em larga escala, com sofisticação e presença recorrente ao longo do calendário esportivo mundial. Além disso, a F1 atrai um público premium, com alto poder aquisitivo e afinidade com o luxo, o que faz da categoria um terreno fértil para o posicionamento de marcas high-end (voltadas a alta qualidade e exclusividade).
Fãs da Fórmula 1 (em milhões):

A entrada da LVMH se deu com ativações específicas. TAG Heuer assumiu o papel de cronometrista oficial, enquanto a Louis Vuitton passou a produzir os estojos personalizados para os troféus de corrida, além de patrocinar o GP da Austrália. Moët & Chandon, por sua vez, voltou ao pódio como fornecedora oficial de champanhe, substituindo marcas anteriores como Ferrari Trento. Com isso, a LVMH não apenas ocupou espaços de visibilidade, mas passou a influenciar diretamente a experiência estética e simbólica das corridas.
Do ponto de vista financeiro, a aposta é calculada. A Fórmula 1 gerou cerca de US$ 3,6 bilhões em receita em 2024. Os patrocínios representaram aproximadamente 18,6% da receita da categoria, com um total estimado em US$ 669 milhões. O valor investido pela LVMH, algo em torno de US$ 100 milhões anuais, não apenas a posiciona entre os maiores parceiros do esporte, como também representa uma fatia relevante do faturamento da série. Para a F1, é um reforço de credibilidade; para a LVMH, é um investimento em construção de marca de longo prazo.
Essa movimentação também sinaliza uma mudança mais ampla no comportamento das marcas de luxo em relação ao esporte. Historicamente, o luxo se mantinha à margem das arenas esportivas, apostando mais em eventos fechados, artes, moda e patrocínios culturais. Hoje, o jogo mudou: o esporte de elite virou um canal legítimo para a construção de desejo, pertencimento e narrativa aspiracional. Fórmula 1, tênis, vela, até mesmo esportes de inverno, são todos territórios onde a performance humana encontra a sofisticação estética, criando o cenário ideal para marcas que buscam se conectar de forma emocional e visual com seu público.
No caso específico da Fórmula 1, o apelo vai além do espetáculo. Há uma valorização crescente da engenharia de ponta, da inovação tecnológica e da sustentabilidade, temas caros à nova geração de consumidores e, ao mesmo tempo, cada vez mais integrados ao discurso das Maisons. A própria Louis Vuitton, por exemplo, tem investido em coleções cápsula com estilo futurista e materiais de menor impacto ambiental. Ao se associar à F1, ela reforça esse posicionamento de vanguarda, traduzindo inovação em lifestyle.
Outro ponto relevante é o storytelling. A Fórmula 1 oferece um roteiro contínuo, com drama, rivalidade, superação e glamour, tudo isso em locais icônicos ao redor do mundo. Para a LVMH, isso é um prato cheio: cada corrida vira uma nova oportunidade de ativação, seja em collabs limitadas, experiências VIP, campanhas digitais ou narrativas de bastidores. A marca não apenas aparece, ela participa da história sendo contada.
E esse movimento também antecipa o futuro da indústria do luxo. O consumidor de hoje valoriza não apenas o produto, mas o contexto em que ele é apresentado: o que ele representa, como é vivido e em quais mundos ele está inserido. Nesse sentido, o patrocínio à F1 é mais do que uma aliança estratégica, é uma declaração de intenções. A LVMH não quer apenas vender objetos de desejo. Ela quer construir um ecossistema cultural onde esses desejos nascem.
No fim das contas, a presença da LVMH na Fórmula 1 não se baseia apenas em relógios, baús de troféus ou champanhe no pódio. É sobre a ocupação de um espaço simbólico onde luxo, tecnologia, velocidade e status se cruzam. É um reflexo da visão do grupo de que o luxo do século XXI não se limita mais à exclusividade silenciosa, mas se manifesta em grandes palcos, onde emoção e performance moldam a percepção pública. A F1 oferece isso, e a LVMH, com sua visão global e estética impecável, encontrou no automobilismo uma nova oportunidade.