O Voo das Low-Cost: como Ryanair e EasyJet Transformaram a Aviação Global
- Grupo de Negócios da Escola Politécnica da USP
- 17 de jun.
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de ago.
Receitas auxiliares e gestão eficiente impulsionam a expansão das companhias aéreas de baixo custo
Por Felipe Ramos (Júnior do Grupo)

As companhias aéreas de baixo custo conseguiram, ao longo das últimas décadas, romper com os modelos tradicionais e estabelecer uma nova lógica na indústria da aviação. Empresas como Ryanair, EasyJet, Wizz Air e Southwest demonstraram que é possível operar com alta rentabilidade mesmo oferecendo passagens a preços muito inferiores aos praticados pelas companhias tradicionais. Esse sucesso não veio de uma simples redução de preços, mas de um modelo de negócios altamente eficiente e disciplinado em cada detalhe operacional, financeiro e estratégico.
No centro desse modelo está a busca por simplificação. Ao padronizar suas frotas — com a Ryanair voando quase exclusivamente com o Boeing 737 e a EasyJet com o Airbus A320 — essas empresas conseguem reduzir drasticamente seus custos de manutenção e treinamento, além de ganhar eficiência logística na gestão de peças e reposição. Em vez de operarem complexos sistemas de conexão nos grandes hubs aeroportuários, como fazem as companhias tradicionais, as low-cost estruturam suas operações em rotas diretas, reduzindo tempos de voo, riscos de atraso e complexidade de gestão de malha aérea. O tempo em solo dos aviões também é minimizado ao máximo, permitindo que uma mesma aeronave realize diversos voos ao longo do dia e aumentando a produtividade de cada ativo.
Embora as tarifas atraiam os consumidores pelos preços baixos, boa parte da rentabilidade dessas companhias vem de fontes auxiliares de receita. Praticamente todos os serviços adicionais são monetizados: desde o despacho de bagagens e a escolha de assentos até alimentação a bordo, embarque prioritário, taxas para alterações de bilhete e parcerias com hotéis, locadoras de veículos e seguradoras. Nas empresas mais consolidadas desse segmento, como a Ryanair, essas receitas já representam uma parcela significativa do faturamento total. Assim, o passageiro é atraído por um preço inicial acessível, mas boa parte da monetização acontece à medida que ele opta por serviços adicionais durante a compra ou no próprio voo.
Receita auxiliar em razão da receita total (Fontes: EasyJet RI; Emirates RI; Ryanair RI; United Airlines RI)

Esse modelo permite que as low-cost apresentem um dos menores custos unitários de toda a indústria, medidos pelo CASK (custo por assento-quilômetro disponível). Com estruturas enxutas, frota padronizada, alta utilização dos aviões e margens ajustadas, essas companhias conseguem manter a rentabilidade mesmo com tarifas muito agressivas. Além disso, sua flexibilidade operacional as torna mais resilientes em momentos de oscilação econômica, conseguindo ajustar capacidade e preços com agilidade, algo que muitas vezes as companhias tradicionais não conseguem replicar com a mesma velocidade.
Ainda assim, o modelo carrega vulnerabilidades importantes. A forte dependência de volume de passageiros deixa essas empresas mais expostas a choques de demanda, como ficou evidente durante a pandemia de 2020. Além disso, a pressão de custos variáveis — especialmente combustível, leasing de aeronaves e mão de obra — pode rapidamente afetar margens já bastante ajustadas. Existe também o risco reputacional: a monetização agressiva de serviços auxiliares frequentemente é alvo de críticas de consumidores e de autoridades regulatórias, especialmente em mercados mais sensíveis a questões de transparência tarifária. A dependência de aeroportos secundários, que oferecem taxas mais baixas para atrair operações, é outro ponto de atenção, pois mudanças nesses contratos podem impactar a estrutura de custos de forma relevante.
Apesar dessas fragilidades, o modelo de negócios das companhias low-cost segue sólido e em expansão global. Combinando disciplina operacional, agilidade na tomada de decisão e um foco absoluto em eficiência, essas empresas continuam ganhando espaço na Europa, na América Latina, na Ásia e em vários mercados emergentes. Sua trajetória representa um dos exemplos mais claros de como uma estratégia bem definida, executada com consistência, pode redesenhar completamente um setor historicamente complexo e competitivo como o da aviação.